Uma rua! Sabe lá o que é isso? É onde mora a alma encantadora das cidades, como João do Rio escreveu com tanta maestria: “Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que esse amor assim absoluto, assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos com as dores e os desprazeres, a lei e a polícia mas porque nos une, agremia e nivela, o amor da rua”.
Também amo as ruas. Ouso dizer que a rua foi a minha casa. Embora eu nunca tenha morado na rua, sempre me senti muito em casa no meio da rua. Mas a rua foi arrancada do urbanismo moderno, como se elas fossem apenas a alma caótica, suja e perigosa das cidades. Pobres urbanistas que quiseram higienizar a algaravia inquietante das ruas. Sem rua, sobra pouca vida nas cidades.
Há dias venho andando pelas ruas do Rio de Janeiro, a pé, de metrô, ônibus, VLT e BRT. Batendo perna, matei um pouco a saudade das ruas. As ruas são os rios da vida urbana. A rua é lugar de medo e de vida, de perigo e de silenciosa cumplicidade, é o lugar do confronto e da alteridade. É ali, ombro a ombro, goste ou não goste, queira ou não queira, que nos igualamos. A rua é a aldeia urbana, todo mundo transitando nas mesmas águas, sob a mesma correnteza, compartilhando humanidade. A rua nos iguala, somos todos apenas humanos – o carro, a casa, o cartão de crédito não fazem nenhuma diferença no vaivém das ruas.
João do Rio até tinha riquezas, tinha reconhecimento e milhares de seguidores, muito antes das redes sociais. Não lhe faltava nem nome nem sobrenome: João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, mas ele ficou eternizado pela soma do primeiro nome próprio ao nome da cidade a quem tanto cantou em algumas das mais belas crônicas já escritas sobre o Rio de Janeiro. É verdade que ele teve mais de dez pseudônimos, porém nenhum outro se sobrepôs a João do Rio – tão curto, tão simples, tão lírico.
O lirismo de João do Rio não era limpinho. Tinha sangue, sujeira, sofrimento naquele Rio de Janeiro entre o fim do século XIX e começo do século XX: “A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento”. Sendo assim, “a rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas”.
Rua, rua, rua é só o que quero e logo cedo pulo da cama pra pôr os pés nas calçadas irregulares (e perigosas) de pedrinhas portuguesas. É nas ruas que reencontro minha humanidade urbana. Eu não sou uma ilha, embora todo ser humano esteja, inescapavelmente, insulado em si mesmo. A rua me devolve o continente e com ele a multidão de sentimentos e sensações que pareciam petrificados.
Precisei ir à Rua da Quitanda, no centro da cidade, e – encantada – vi que João do Rio tinha escrito sobre ela. Antes de ter esse nome, foi chamada de Açougue Velho, Sucusarrará, Canto do Tabaqueiro e, por penúltimo, Quitanda do Marisco, até ficar só Quitanda. O nome das ruas é por si só um encanto.
A Rua da Misericórdia foi a primeira rua do Rio de Janeiro, e João do Rio também escreve sobre ela: “Dela partimos todos nós, nela passaram os vice-reis malandros, os gananciosos, os escravos nus, os senhores em rede; nela vicejou a imundície, nela desabotoou a flor da influência jesuítica. Índios batidos, negros presos a ferros, domínio ignorante e bestial, o primeiro balbucio da cidade foi um grito de misericórdia, foi um estertor, um ai! tremendo atirado aos céus”.
Como se lê, não era bonitinha nem arrumadinha a alma encantadora das ruas do Rio de Janeiro no tempo de João do Rio. E continuam não sendo bonitas nem arrumadas como gostaríamos que fossem. Mas a alma encantadora está lá, estourando nos olhos de quem quase tinha se esquecido o que é mesmo uma rua e quão encantadora ela pode ser.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.